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Tektitos "geraisites" no Brasil revelam impacto antigo sem cratera identificada

Pessoa analisando pedaços de minerais verdes no solo árido com caderno e lupa ao lado.

Fragmentos de vidro encontrados aos centenas no Brasil são, segundo cientistas, vestígios de um impacto antigo que os espalhou há milhões de anos.

Essas “bolhas” de material seriam respingos de rocha derretida no momento da colisão: a rocha foi liquefeita, lançada para longe e, em seguida, resfriou rapidamente até endurecer em objetos vítreos parecidos com pedrinhas - alguns do tamanho de uma ervilha e outros chegando ao tamanho de uma bola de golfe. Esse tipo de vidro de impacto é conhecido como tektito.

O conjunto formado pela área onde esses tektitos se espalham - um campo de dispersão - passa a integrar uma lista bem curta: até hoje, apenas poucos campos desse tipo foram reconhecidos.

"Fiquei muito surpreso!" disse ao ScienceAlert o geólogo Álvaro Penteado Crósta, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no Brasil. "Tektitos são um material muito raro na Terra."

O que torna o achado ainda mais intrigante é que, até agora, não foi possível apontar uma cratera de impacto associada.

A história de impactos na Terra é bem menos nítida do que a de outros corpos rochosos, como a Lua, Mercúrio e Marte. Processos tectónicos, geológicos e atmosféricos do nosso planeta, ao longo do tempo, desgastam, apagam ou encobrem as marcas deixadas por colisões de grandes objetos.

O que são tektitos e por que quase não aparecem

Um dos “dedos digitais” de um impacto pode ser justamente o tektito. Ele se forma quando um meteorito atinge a Terra com energia suficiente para gerar temperaturas capazes de derreter rochas superficiais. As porções fundidas são arremessadas para a atmosfera e solidificam como vidro, podendo cair muito longe do local do impacto.

A região coberta por essa chuva de material é chamada de campo de dispersão. Ainda assim, esses campos são raros porque os tektitos se degradam depressa em termos geológicos: no máximo, resistem por apenas algumas dezenas de milhões de anos.

Como os tektitos "geraisites" surgiram em Minas Gerais

O caso brasileiro não começou com uma expedição planeada ou com análises laboratoriais, mas com um morador de Minas Gerais. Ele encontrou uma dessas contas vítreas incomuns, pesquisou o que poderia ser e entrou em contacto com o especialista em meteoritos Gabriel Silva, da Universidade de São Paulo (USP).

"Embora as fotos que o morador nos enviou parecessem tektitos, no início Gabriel e eu ficámos céticos porque tektitos de outros lugares, como Tailândia e Filipinas, hoje em dia podem ser comprados facilmente online", relembrou Crósta. "Além disso, tektitos e obsidiana (vidro vulcânico) podem parecer semelhantes quando vistos em fotos."

Algumas semanas depois, chegou um segundo relato - desta vez de outro morador, a cerca de 60 quilómetros (37 milhas) do primeiro. Diante disso, os pesquisadores pediram amostras. Testes iniciais indicaram que os “glóbulos” poderiam mesmo ser tektitos; daí em diante, o passo inevitável foi ir pessoalmente a Minas Gerais para procurar mais exemplares.

Até agora, já foram identificados mais de 600 desses objetos. Quando o estudo foi publicado, eles abrangiam uma faixa de 90 quilómetros em Minas Gerais. Posteriormente, novas descobertas nos estados vizinhos da Bahia e do Piauí ampliaram o campo conhecido para mais de 900 quilómetros.

Esses tektitos brasileiros receberam o nome de geraisites, em referência ao estado onde foram reconhecidos pela primeira vez.

"Os momentos mais empolgantes acontecem quando encontramos esses tektitos no campo com as nossas próprias mãos", disse Crósta, "e depois, quando obtemos a confirmação da origem com base nos dados analíticos".

A água quase ausente, a idade e a cratera que ainda não apareceu

Uma das chaves para confirmar que o vidro tinha origem em impacto estava no que ele quase não possuía: água.

Vidros vulcânicos como a obsidiana geralmente apresentam entre 700 partes por milhão e 2% de água. Já os geraisites continham entre 71 e 107 partes por milhão. "Um dos critérios decisivos para classificar o material como um tektito foi o seu teor muito baixo de água", afirma Crósta.

Essa quase ausência se explica porque o calor extremo gerado num impacto - muito além do que um vulcão consegue produzir - praticamente “fervilha” e remove quase toda a humidade da rocha derretida enquanto o material atravessa a atmosfera.

A datação de isótopos de argónio nos tektitos indicou uma idade máxima de aproximadamente 6,3 milhões de anos - valor que pode ser menor se o local do impacto já contivesse o seu próprio argónio. As análises químicas e isotópicas dos geraisites também apontaram algo marcante sobre as rochas que foram derretidas na colisão.

O material de origem seria crosta continental antiga - mais provavelmente rochas graníticas do Cráton do São Francisco, uma das regiões mais antigas e geologicamente estáveis da América do Sul.

"A assinatura isotópica indica uma rocha fonte continental, granítica e muito antiga", diz Crósta. "Isso reduz bastante o universo de áreas candidatas."

Quão antiga, exatamente? Quando o meteorito atingiu a região, as rochas vaporizadas pelo impacto já tinham cerca de 3 mil milhões de anos. Elas se formaram no Mesooarqueano, numa época em que a própria Terra tinha menos da metade da idade atual.

A grande questão é a cratera em falta. Pelo tamanho e formato do campo de dispersão, junto com a identificação da rocha fonte dos geraisites, seria possível inferir aproximadamente onde ocorreu a colisão. Mesmo assim, até o momento não foi encontrada nas proximidades nenhuma estrutura de impacto com a idade adequada.

Isso, porém, não é tão estranho quanto parece. Entre os campos de dispersão de tektitos conhecidos, apenas três têm uma cratera claramente identificada. O maior deles é o campo Australasiático, cuja cratera, acredita-se, esteja enterrada em grande profundidade sob o oceano.

Agora, os pesquisadores tentam reconstruir por engenharia reversa as características do evento de impacto, atualizando os cálculos conforme novas informações surgem - como a expansão do campo de 90 para 900 quilómetros. Esses dados são essenciais para estimar energia, velocidade e volume de rocha fundida envolvidos.

Os autores observam que a identificação do campo de dispersão de geraisites ajuda a preencher uma lacuna importante no registro de impactos (ainda incompleto) do Brasil e também sugere que tektitos talvez não sejam tão raros quanto se imaginava - podendo, em muitos casos, ser confundidos com outros tipos de vidro.

"Isso tem implicações importantes para o registro geral de impactos da Terra", escrevem Crósta e a sua equipa no artigo, "sugerindo que pode haver outras ocorrências de tektitos ainda não descobertas, com origens, composições químicas e idades distintas".

A pesquisa foi publicada na revista Geology.

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