Chatbots de IA podem funcionar como uma "muleta cognitiva" que diminui nossa capacidade de reter informações, sugere um novo estudo.
A pesquisa foi conduzida pelo especialista em IA André Barcaui, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que realizou um experimento com 120 estudantes universitários. Metade deles pôde usar o ChatGPT para ajudar a responder a uma tarefa sobre inteligência artificial, enquanto a outra metade não teve esse recurso.
Em um teste surpresa aplicado 45 dias depois da proposta da atividade, os alunos que usaram o ChatGPT obtiveram, em média, 5,75 de 10. Já os que seguiram o caminho tradicional de estudo alcançaram média de 6,85 de 10.
É uma diferença relevante e, embora o estudo seja relativamente pequeno em número de participantes e duração, seus resultados estão em sintonia com outras pesquisas que indicam que recorrer à IA para buscar informações faz com que absorvamos menos conteúdo.
"Isso sugere que o uso irrestrito do ChatGPT prejudicou a retenção de longo prazo, provavelmente ao reduzir o esforço cognitivo que sustenta uma memória duradoura", escreve Barcaui em seu artigo publicado.
Ao abrir o ChatGPT ou uma ferramenta de IA semelhante, é possível obter um resumo sobre praticamente qualquer assunto: DNA, filmes dos anos 1950, história romana ou os melhores exercícios para pessoas com mais de 50 anos, por exemplo. As informações fornecidas pela IA vêm de uma enorme quantidade de dados de treinamento extraídos da web aberta e de outras fontes, e frequentemente estão incorretas.
Neste estudo, os estudantes tiveram cerca de duas semanas para aprender sobre IA e, em seguida, precisaram fazer uma apresentação de 10 minutos sobre o tema. Para metade do grupo, o ChatGPT podia ser usado para procurar informações online, além de sintetizar, explicar e estruturar conteúdos, bem como oferecer exemplos. A outra metade teve de se limitar a métodos tradicionais de pesquisa, sem IA.
Os dois grupos também foram divididos igualmente de acordo com o nível de experiência prévia com chatbots de IA como o ChatGPT. Embora não houvesse iniciantes absolutos nem especialistas, mais da metade dos participantes se descreveu como usuária frequente de IA.
Além de terem pontuado mais alto no teste, com uma vantagem de 11 por cento - o que poderia equivaler a um nível inteiro de nota em uma prova padrão -, as notas de quem usou um método tradicional de aprendizagem ficaram mais concentradas na faixa superior. Entre os que recorreram ao ChatGPT para estudar, os resultados apareceram mais dispersos.
Por outro lado, aprender com IA foi claramente mais rápido: o grupo que usou ChatGPT dedicou, em média, 3,2 horas à tarefa, contra 5,8 horas do grupo sem IA.
A ideia de descarregamento cognitivo, isto é, usar ferramentas externas para auxiliar o cérebro, não é nova. No passado, isso incluiria calculadoras e livros didáticos.
Em 2011, uma equipe liderada pela psicóloga Betsy Sparrow, da Universidade Columbia, descreveu pela primeira vez o que mais tarde seria chamado de "amnésia digital" - o efeito de mecanismos de busca como o Google sobre nossa capacidade de guardar informações.
Agora que assistentes de IA conseguem assumir grande parte da carga mental, estudos indicam que eles podem estar mudando a forma como pensamos, percebemos, nos concentramos e lembramos - e não necessariamente de maneira positiva.
"Os achados se alinham à teoria do descarregamento cognitivo e ao princípio das 'dificuldades desejáveis': embora a assistência da IA possa facilitar a aprendizagem inicial, ela parece enfraquecer os processos de esforço necessários para uma aprendizagem sólida", escreve Barcaui.
Diversos estudos já apontam que o uso de aplicativos como o ChatGPT pode estar privando nosso cérebro do exercício de que ele precisa - e isso traz consequências.
E isso sem sequer considerar as exigências da IA em termos de recursos naturais, nem os erros que ela frequentemente comete.
Barcaui é, na verdade, otimista quanto ao potencial da IA como ferramenta de pesquisa e educação, mas afirma que ela precisa ser usada com cautela. Nesse experimento com estudantes, o ChatGPT demonstrou impactar negativamente tanto a capacidade de absorver corretamente as informações quanto a de recordá-las mais tarde.
"Futuras estratégias de ensino devem buscar aproveitar os benefícios da IA sem abrir mão do engajamento cognitivo e da luta produtiva necessários para uma aprendizagem duradoura", escreve Barcaui.
"Na era da IA, os princípios centrais da aprendizagem humana não estão ultrapassados; na verdade, são mais importantes do que nunca e precisam ser preservados."
A pesquisa foi publicada na revista Social Sciences & Humanities Open.
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